Os cabelos que me levam

Eu sei: sou eu que levo a eles. Mas a sensação é de que eles sempre chegam na frente. Como se sentissem as mudanças internas acontecendo e precisassem logo anunciar ao mundo. Aparece uma vontade incontrolável de mexer no corte, na cor, no estilo.

Lembro de vários momentos em que isso aconteceu.

Quando eu era menina sonhava com lindos e volumosos cachos. Tomava banho, enchia os cabelos de trancinhas bem fininhas e ia dormir, com ele molhado mesmo. A esperança era que, na manhã seguinte, as tranças tivessem feito mágica e transformado meus longos e lisíssimos fios.

Transformavam sim, mas obviamente não no que eu queria. O máximo que sempre consegui foram ondinhas, que não duravam mais do que duas horas.

Sempre recebi elogios pelos longos cabelos dourados. Acho que ajudaram a conquistar o marido inclusive. Mas sempre brilhei os olhos pros cachos. Mania essa que a gente tem de viver querendo a grama do vizinho.

Esse cabelo levei até a maioridade. Com 18 ele estava tão surrado que uma japonesa nem precisou de muito pra me convencer a cortá-lo. Ficou na altura dos ombros. E só não ficou mais curto porque convenci a moça a ir devagar com a tesoura. Pensando agora, acho que foi uma das primeiras “radicalizadas” da minha vida.  Quase perdi o futuro marido com ela (era recém namorado ainda), porque ele odiou e porque eu quis matá-lo por isso. Mas eu não ia voltar do outro lado do mundo a mesma pessoa … ora bolas!

Dali pra frente os fios nunca mais foram além dos ombros. Pelo contrário, morri de amores pelos curtos e super curtos.

A Claudia cansou de olhar fotos que eu levava como referência. “Quero igual ou o mais perto que der”. Ela até tentava me dissuadir, mas não funcionava muito.

Mesmo assim, o amor pelos cachos ainda dormia em mim. Pedi uma filha que os tivesse. Que herdasse o cabelo do pai. E não é que fui atendida?! (E ela os ama – Amém!)

Além de cortar a toda hora sempre usei tintas, mas era básica, conservadora. Variava apenas dentro da mesma paleta de cores do cabelo. Até o dia em que outra mudança grande se anunciava – acordei com espírito de ruiva! Marido achou o máximo e eu fui!

Voltei num misto de estranhamento-susto-expectativa-entusiasmo. Levei uns dias pra me acostumar. Mas fui gostando cada vez mais. Achei identificação.

Interessante mesmo foi a reação dos outros – os mais de perto foram os que menos gostaram (com exceção do marido, ufa). Acho que acostumam com a gente de uma certa forma e criam uma imagem/expectativa que – suspeito – poucas vezes é real. Mudanças assustam. Acho que se perde a sensação de segurança, como se não conhecêssemos verdadeiramente a pessoa que mudou.  E eu estava realmente me sentindo uma nova pessoa. Renovada.

Segui ruiva por uns 2 ou 3 anos eu acho, não tenho certeza (nomes e noção de tempo são um problema pra mim). Até que começou a cansar. E também a custar – tempo, dinheiro e a saúde do cabelo.

Novas mudanças se anunciavam. Chutei o balde e deixei ele largado no canto. Parei de pintar e parei de cortar. “Seja o que Deus e os cabelos quiserem. Vamos ver o que vai dar.”

Os grisalhos ganharam a sua vez. Os fios foram ganhando comprimento e tomando a forma que queriam. Claro que o secador sempre foi item de sobrevivência (do tipo que levaria pra uma ilha deserta), mas já não achava tão ruim o que o espelho me mostrava de manhã cedo.

Fui deixando. Libertei os cabelos e a mim também. 

E junto com a liberdade – que é TUDO DE BOM, mas a gente teima em podar com nossas neuras – a mágica inesperadamente aconteceu! Não vou chamar de cachos pra não forçar a barra. Mas um volume, ou bagunça volumosa, com certeza existe! Já tive esse corte antes, mas sempre precisei moldar com o secador pra dar forma. Ainda uso, mas tem dia que não preciso de nada, só passar os dedos ou dar uma amassadinha com pomada. E tenho voltinhas e volume e um cabelo esvoaçante! (palmas, palmas, palmas)

Há se eu soubesse… Tinha me alforriado antes!

Claro que já tenho planos de cortar! rsrsrsrsrs… Mas nada tão curto. Mais uma podada mesmo. Uma regulada no corte. Enquanto isso não acontece, sigo curtindo minha liberdade e as mágicas que ela faz. 

Publicado por Lu Raimann Soares

{ Não deixar a vida pra depois! } Depois que decidi (levei 40 anos pra isso!) tenho me esforçado para manter algumas coisas presentes todos os dias: respirar fundo e com vontade, caminhar, meditar, me manter flexível (o corpo, a mente, a alma) e o mais leve que conseguir. Botar ordem no que for possível, fazer coisas que me inspiram - o que inclui usar minha imensa curiosidade sobre o mundo pra absorver tudo que eu puder - e agradecer por tudo e todos que me fazem uma pessoa FELIZ e um ser HUMANO MELHOR. O VIVER E CONTAR surgiu dessa decisão. Num momento da vida em que dobrei a esquina e decidi mudar de direção. Precisava viver. Sem todos os medos e aflições que sempre tive. Mas pra isso, precisava antes visitar lugares que nunca tinha ido antes. Lugares internos, profundos, de autoconhecimento. Lá, encontrei muitos espelhos, que me colocaram frente a frente com faces minhas que nem sabia que existiam. Algumas bem difíceis de ver, várias menosprezadas e outras bem surpreendentes. Muitos aprendizados vieram. E um tempo de reclusão e introspecção. Mas a vida não expande apenas para dentro. Ela vive para fora. Precisa fluir na direção do que faz crescer. As percepções e aprendizados precisavam sair e serem compartilhadas. E aqui estou. Hoje posso dizer que me reencontrei. E a principal reconexão foi com minha essência feminina, que tem ganhado voz de várias formas: na minha arte com linhas e bordados; no tarot, parceiro fiel na conexão com o grande invisível que existe em nós e no universo; nas vivências e encontros que tenho planos de promover com mulheres F*** que encontro pelo caminho. Viver e Contar é um plano simples. Um troca. Se você chegou aqui, sinta à vontade para participar. Vou adorar te conhecer.

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