O lado mau

Nunca fui capaz de rir de mim mesma. Até hoje lembro de pessoas que riram de mim em situações do passado – ou eu interpretei que estivessem fazendo isso – e sinto mágoa.

PS: Esse não é um texto de autopiedade. Apenas um compartilhamento de percepções que venho tendo há algum tempo sobre minhas limitações e as dificuldades com elas.

Há alguns dias aconteceu de novo. Um fato envolvendo minha filha e um compromisso dela fora de casa, me tirou profundamente do sério. Nada muito grave, apenas uma comunicação confusa e um mal entendido nos horários, que me fizeram chegar tarde para buscar a ela e um amigo num ensaio. Acabou com os dois sendo os últimos, as portas sendo trancadas e outra mãe socorrendo ambos com uma carona. E ninguém conseguindo me avisar porque eu sai de casa sem celular.

Tudo se resolveu bem e sem stress. Menos pra mim, tomada por uma raiva além do normal, furiosa, xingando Deus e o mundo. Como se todos tivessem cometido um grande erro e, pior, feito eu errar.

Ninguém errou, óbvio. Mas o sentimento de culpa que se instalou foi do mesmo tamanho da raiva e, instantaneamente, me fez atacar. E essa reação é recorrente. Ou ataco ou me julgo a pior das pessoas. Nesse caso ataquei, porque me convenci de que o equívoco não era meu. E isso só fez a culpa crescer: eu escolhi ficar em casa e ir buscar as crianças só no final do ensaio. Porque ficar lá parada, esperando, é um tédio! E eu definitivamente não estava a fim. Atitude nada recomendável para uma boa mãe, que deve ser zelosa, participativa e paciente. Tive que olhar pra luzinha de “pessoa má” que se acendeu por dentro.

Não sei errar! E sei menos ainda admitir defeitos, fraquezas e vulnerabilidades. Todos temos um lado que nos envergonha, eu sei. Mas o que eu (acho que a maioria) aprendi em relação a ele é – esconda-o. Mate-o, se puder. Ter um lado “mau” – ou falho – é totalmente desaprovável. Sinônimo de NÃO MERECIMENTO.

É uma volta à minha mente de menina – merece as coisas boas da vida quem se esforça. Quem se comporta direito. Quem segue a cartilha politicamente correta. Quem se dedica e cumpre sempre o combinado. Quem divide e não briga. Quem não revida. Quem pensa primeiros nos outros e depois em si.

Sim. Parece bem dramático. Mas tenho olhado pra isso com muita atenção nos últimos tempos, porque já me senti assim incontáveis vezes na vida. Um sofrimento exagerado que não se justifica. Fruto de um julgamento muito pesado que, só acho, carrego desde sempre. Primeiro julgo e “chicoteio” a mim mesma, e depois aos outros. Quanto mais decepcionada comigo mesma, mais desconto em quem está ao redor. Em quem eu mais amo. Quanto mais exijo de mim, mais exijo dos outros. E mais as expectativas se elevam em relação a tudo e todos.

A solução parece simples – aceitar a imperfeição. Abraçá-la, botar no colo e levar pra casa. Ninguém mais no mundo precisa ser perfeito, especialmente eu! Todo mundo está livre pra errar e assumir seus podres. Afinal, como humanos, estamos aqui justante pra aprender, não é isso? E quem mais ensina não são os erros?

Só que na prática…

Não podemos sair por aí desculpando todos os comportamentos ruins do planeta. Mas se fossemos capazes de ser pelo menos mais empáticos (capazes de nos colocar no lugar do outro e tentar sentir o que ele sente, tentar compreender porque se comportou daquela forma), talvez os conflitos fossem menos dolorosos e, quem sabe, tivessem resolução mais efetiva, sem que ficassem se repetindo e repetindo ao longo das nossas vidas.

Percebo em mim que, quanto mais tento esconder minhas falhas e aquilo que me envergonha, mais persigo a perfeição. E quanto mais isso acontece, mais intensamente o “lado mau” pula pra fora em algum momento. Como se quisesse me lembrar na marra que ele existe e é real. Que faz parte de mim. Já a perfeição nada mais é que uma ilusão. Uma maneira que encontramos de tentar nos proteger do sofrimento. Só que não ajuda em nada. Muito pelo contrário.

Buscar perfeição aumenta o peso e a pressão sobre nós mesmos. Eleva as expectativas a patamares irreais. E quase sempre cria um sentimento de superioridade, onde nos damos o direito de julgar o outro. O que vem junto? Mais sofrimento. Ao passo que, se conseguimos aceitar nossas imperfeições, convivemos melhor com nós mesmos e com o outro. Reencontramos nossa humanidade e consciência – a única capaz de nos descer do pedestal e fazer reconhecer que, em muitos momentos, somos malvados também.

Olhar pra esse lado que nos envergonha não é muito fácil. Mas pense que, no fundo, ele é uma defesa. Um escudo protetor que atira quando nos sentimos ameaçados ou com medo. Um reflexo de coisas mais profundas, que nos enrolamos até onde dá pra encarar. Porque é ali que o bicho pega. É ali que temos que conseguir sentar e analisar de verdade. É dali que vem a compreensão do que realmente entrava nossa vida e nos faz causar dor – em nós mesmos e nos outros. Mas antes, jogue fora qualquer tipo de chicote. Autopunição não ajuda. O que mais costumar ter efeito é o “aceita que dói menos”. Só não vale transformar em autopiedade e usar como desculpa pra continuar fazendo M…. Acessar o conhecimento e escolher não usá-lo, sim, é burrice.

E pra constar – isso não tem fim. Não é igual gripe que cura e passa. Quando conseguimos dar conta de um, aparece outro. Resolvemos uma camada e logo abaixo já aparece outra. Mas não desista. Isso é poderoso e transformador. Quando você permite que essa porta se abra, ela te mostra uma clareza surpreendente sobre alguém que você achava que conhecia muito bem. Adivinha quem?

“Sua coragem pode ser medida pelo quão vulnerável você é capaz de ser.” Brené Brown

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